Pois é, hoje é “dia de finados”. Os cemitérios cheios, flores, mausoléus, lembranças: o passado que emerge com força de uma cova a sete palmos da superfície.
Coincidentemente, acabei de ler ontem à noite uma novela que trata da tensão entre a vida, a saúde, a doença e a morte: Homem Comum (Cia. das Letras, 2007), do escritor norte-americano Philip Roth (Foto).
Um belo livro – o último de Roth traduzido para o português – que
narra a história de um homem que, desde muito cedo, vive em sua cabeça as tensões da morte, como se esta fosse lhe surpreender a qualquer instante. Essa circunstância lhe obriga a refletir, já no final da vida, sobre sua trajetória, suas escolhas, suas esposas, filhos e amantes, sua solidão e ressentimentos. Com um texto (o da tradução) muito bom, Philip Roth cativa e envolve o leitor no drama vivido por aquele homem.Por uma dessas coisas inexplicáveis do destino, ontem à tarde recebi a notícia do falecimento do pai de um grande amigo meu. Lá na beira do rio São Francisco, se não me engano numa cidade inspiradamente chamada de Canoeiros, o seu pai se foi. À noite, enquanto acabava de ler o livro de Roth, eu me lembrava que nunca ouvira esse meu amigo dizer o nome de seu pai. Ele sempre se referia a seu pai, independentemente do interlocutor, como “papai”.
Nessa hora, eu me dei conta que a personagem central do livro também não tinha nome próprio: era somente o homem comum. Eu também me dei conta de que jamais sentira a necessidade de saber o nome dos dois: um era o “papai” do meu amigo; o outro era a “personagem” do livro. Os dois eram, cada um a seu modo, homens comuns, no que isso tem de mais belo, singelo e humano.
Ficam aqui os nossos sentimentos ao Rafael pela perda de seu pai e um trecho do romance de Philip Roth.
“Sabe por que ela está chorando desse jeito”. “Acho que sei, sim”, ele retrucou, num cochicho querendo dizer: é porque ela é como eu sou desde menino. É porque ela é como todos. É porque a intensidade mais perturbadora da vida é a morte. É porque a morte é tão injusta. É porque, para quem provou a vida, a morte não parece nem sequer natural.








