No final de 2007 , não me lembro se foi em Outubro ou Novembro, li a coluna de Júlio Maria no caderno Variedades do JT. O texto me chamou a atenção e na hora pensei “
demorô, vou usar isso para o dia 25/01”. Recortei e guardei na gaveta. Hoje, o tal dia vinte e cinco, aniversário de nossa querida cidade, uso o artigo para homenagear a terra da garoa.
Parem de falar mal de São Paulo, por Júlio Maria
Falar mal de São Paulo se tornou um clichê sem graça que habita o mesmo universo de clichês sem graça do tipo ‘a chuva voltou’ ou ‘que calor, né?’. Aquele tipo de papo furado que engatamos com um conhecido no elevador, de quem sabemos que vamos nos livrar em minutos. Um lugar-comum em farrapos, um mantra barato. Frases feitas do tipo ‘ não agüento mais esse trânsito’ ou ‘esse tempo louco da cidade’ deu o que tinha de dar e este colunista, humildemente, vem por meio desta solicitar sobretudo aos não paulistanos que pisam essas terras que, por obséquio, PAREM DE FALAR MAL DE SÃO PAULO.

Uma dica aos forasteiros: não falem mal de São Paulo a qualquer paulistano. Ele vai concordar com você para não ser mal educado – discrição é uma de suas marcas – mas no fundo sentirá o impulso de enfiar um prego em seus olhos sobretudo se você estiver bem de vida e sustentando sua família com um belo emprego que só conseguiu, olha que coisa, em São Paulo. Arremesso a única lança para combater todos os clichês que tentam tornar a Grande Mãe uma velha amaldiçoada. Se o trânsito é insuportável, as ruas são sujas, o céu é cinza, a garoa não pára, os faróis são perigosos, há fila para tudo, os ônibus são lotados e as pessoas são chatas, o que é que o senhor e a senhora estão fazendo aqui?
Se São Paulo fosse uma pessoa, seria uma mulher cansada, daquela que faz tudo por seus filhos, sejam eles legítimos ou deixados em uma cesta na porta de sua casa. Uma senhora que adora receber gente sem ver a cor de seus olhos ou questionar suas reais intenções. Então, depois que os cria e lhes dá emprego, passa a ser agredida. Esses mesmos filhos, apesar de tudo, continuam morando em sua casa e mamando do seu leite. Criem vergonha, filhos de São Paulo. Os senhores não sabem, mas estão na melhor cidade do mundo, segundo uma pesquisa cem por cento imparcial feita por mim mesmo cada vez que tiro férias e consigo conhecer uma outra cidade do Brasil. Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Belém, Salvador, Curitiba, Porto Alegre, Campinas, Londrina, Americana, São Gonçalo do Pará (é, o dinheiro foi acabando) – tudo lugar para se ficar cinco dias e sair correndo de volta para São Paulo. E o que faz essa cidade ser tão irresistível? Anotem aí: a) Não há em nenhuma outra cidade do País um parque
equivalente ao do Ibirapuera com tudo o que ele tem, incluindo museu, planetário, marquise. b) Não existe outro corredor cultural como a Avenida Paulista, com duas livrarias gigantes nas extremidades (Fnac e Cultura), além de um bosque (Trianon) e um museu (Masp) no meio. c) Pense em um prato típico da Indonésia ou do Mali e corra para um restaurante sempre de portas abertas e garçons sorridentes. d) Inútil procurar um pastel de feira como o de São Paulo fora de São Paulo. e) Ninguém com vontade de trabalhar fica cinco dias desempregado por aqui.
Nenhuma outra cidade oferece oportunidade de se ouvir tanta música. Se você leva duas horas no trânsito para ir trabalhar, pode ouvir uma média de dois CDs inteiros na ida e outros dois na volta. Experimente amanhã o novo de Bruce Springsteen para ir e o novo de Teresa Cristina para voltar. Graças ao trânsito, o paulistano tem muito mais cultura musical. Mas lembre-se de um detalhe. A Grande Mãe não perdoa quem vacila. O que quer que você forasteiro queira fazer por aqui, faça direito. Os fracos, como diria um certo capitão Nascimento, são os primeiros que pedem pra sair.
***
Resumo o texto de Júlio usando a frase de uma amiga forasteira que comentou: Se São Paulo tivesse praia, o Rio de Janeiro não apareceria nem no mapa!
No clipe da semana, nada mais justo, e paulistano, do que Ira! com Envelheço na Cidade.